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Melancólico.

23.3.12


Sentou no ônibus, chovia na janela e o céu de Botafogo se diluía na tarde fresca. O vento batia forte, e com ele, a música que falava de um futuro a dois a fez fechar os olhos. Estava tão clichê nas últimas semanas. Vendo em todos os rostos o verde-água que queria para si. Sentiu inveja. Esse vento livre que passava por todas as casas e abraçava todos os pedestres, destemido, a fez lembrar dos sonhos que eles criaram um dia.

Pensou no abraço que ela não sentia a meses e que fazia tanta falta. Saudade que dói, que faz querer voltar o tempo, prolongar o beijo e o jeito que ele a olhava enquanto sussurava a música deles. Nunca pensou que seria capaz de sentir tanta Falta.

A chuva caía lá fora, e ela quis se encaixar naquele abraço quente. Quis deitar na cama e dividir fones, ir ao parque falar sobre nuvens e livros e sonhos, lembrar do passado e fazer planos de casas amarelas, dormir abraçado, ter dois filhos e uma estante de vinis. Quis que ele risse do seu jeito perdido e a ensinasse a amar de novo.

Desceu do ônibus, a música acabou e ela tinha esquecido o guarda-chuva. Quis que a garoa passasse, e que a saudade, com ela, fosse embora e trouxesse de volta o sorriso que queria beijar de novo.
"

Desidratado.

22.11.11


Nós somos muita metáfora
Para o meu querer
pulsante, engarrafado.
Não dói,
Apenas confunde ideias.
Transforma necessidade em
urgência.
Maltrata minha sede
de dilúvio.

Impassível

17.6.11

Cego à catarse. Vazio, oco. Blindado à qualquer tipo de comoção. Um balão, uma casa velha reformada buscando algo talvez abstrato, algo não palpável para suprir essa necessidade de plenitude que falta, para desespero, completamente.
O "permanecer só" custa de aceitar como via única. Me alieno, finjo contentamento. Sou personagem, objeto de ficção. A capacidade de convencimento se aperfeiçoou com a prática e há uma capa de plástico sobre meus quereres inalcansáveis. Meus olhos de vidro são secos de lágrimas. Não por não tê-las. Por gastá-las.

"Não pode ser pior para você do que é para mim". Talvez.


¨

História de um sapato.

15.11.09
Um homem daria uma palestra naquela tarde. Começou mal o dia. Teve problemas no carro e precisou pegar um ônibus. Mas quando entrava, o motorista do dito cujo fecha a porta e seu pé acidentalmente fica preso do lado de fora. Seu sapato, italiano, caíra abandonado na rua e o motorista nada de parar. Rapidamente, sentou no chão do ônibus e com a velocidade de uma flecha, arrancou o outro pé de sapato. Jogou-o pela janela. Ficou de meias, que aliás eram confortáveis.



No fim da tarde, meu pai me liga contando a história. No final, me disse em tom de reflexão, filosofando: "A mim, de que adiantaria um pé de sapato? Ao menos com os dois na rua, terá utilidade para quem encontrar"



Atitude altruísta. Eu com certeza absoluta não teria esse pensamento rápido. No máximo ficaria chorando pelo sapato perdido e com raiva de ter que andar com um pé só.



Por onde andarão esses sapatos?